O início do segundo período letivo de 2022 é marcado no PPGM-UFRJ por lançamentos e relançamentos de livros de integrantes de seu corpo docente. Vinculadas a Linhas e Projetos de Pesquisa do Programa, as publicações trazem abordagens e interpretações inovadoras sobre temas, períodos e autores fundamentais para a pesquisa musical brasileira.

Com relançamento no dia 31 de agosto às 14 horas no Foyer do Salão Leopoldo Miguéz, no contexto das comemorações do aniversário de 174 anos da Escola de Música, o livro Samba, sambistas e sociedade: um ensaio etnomusicológico do professor da Linha de Pesquisa Etnografia das Práticas Musicais Samuel Araújo apresenta uma história crítica do samba na cidade do Rio de Janeiro do início da década de 1990. O foco mais específico do texto recai sobre a elaboração de sambas enredo e algumas particularidades do trabalho musical das baterias de escolas de samba. O autor procura ilustrar a relação entre ambos os fazeres e sua importância para a solução de dilemas sociais de maior abrangência no país e para a mediação entre os diversos aspectos do samba, propondo romper com estratégias na área da música, como a de inferiorização de negras e negros brasileiros.

Samuel Araújo recusa o fortalecimento do status quo eurocêntrico, que desqualifica a produção de não ocidentais, não europeus e não brancos e introduz o conceito de “trabalho acústico”, que estabelece condições para que a produção artística de afrodescendentes e a porção de humanidade que estes representam se mostrem em toda plenitude produtiva e comunicacional. Com o livro de Samuel Araújo, fica ampliado o rol dos estudos sobre o samba no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Música da UFRJ, recentemente enriquecido também pela publicação do livro Nos passos do samba: 300 anos de tradição da igualmente professora da Linha de Pesquisa Etnografia das Práticas Musicais Regina Meirelles, lançado em junho de 2022 e voltado ao estudo das influências musicais e dos fragmentos culturais que propiciaram o surgimento das variantes do gênero musical do samba a partir do lundu, do partido-alto, do samba-canção, do samba-choro, samba de breque e samba-enredo, e ao seu papel na história do carnaval carioca e na Era do Rádio.

Também professor da Linha de Pesquisa Etnografia das Práticas Musicais, Jonas Soares Lana lança no dia 8 de setembro, na Livraria da Travessa de Botafogo (Rua Voluntários da Pátria 97), a partir das 19 horas, o livro Rogério Duprat, arranjos de canção e a sonoplastia tropicalista. Violoncelista, compositor de vanguarda, criador de trilhas sonoras para o cinema e arranjador, Rogério Duprat foi um nome fundamental para a música brasileira, especialmente na elaboração de uma linguagem e de uma estética sonora para o movimento tropicalista no final da década de 1960. Seus arranjos, incorporando elementos musicais e de sonoplastia, ajudaram a ampliar os sentidos das composições e até mesmo o modo de ouvir e perceber as canções da época, que hoje soam atuais.

O trabalho de Jonas Soares Lana parte desse personagem emblemático para fazer uma costura entre música, história e antropologia, e joga novas luzes (e sons) sobre a trajetória de Duprat e sobre a proposta estética tropicalista, nos oferecendo uma verdadeira revolução musical que iria influenciar as novas gerações de maneira significativa. Sua importância é aqui muito bem delineada, seja oferecendo uma oportuna reconstituição biográfica de Duprat, seja discutindo a importância e a relevância dos arranjos nas composições tropicalistas, sem os quais muito se perderia. O livro inclui entrevistas com importantes nomes dos bastidores do movimento e análises dos arranjos de Duprat para canções de Caetano Veloso, Sílvio Caldas e Orestes Barbosa, e Gilberto Gil e Torquato Neto, análises que ajudam a compreender melhor o efeito e o papel dos arranjos e dos recursos utilizados por Duprat para essa sonoplastia inovadora, muitos dos quais empregados na música de cinema de então. A publicação deve-se ao apoio da FAPERJ através de seu Edital “Programa de Apoio à Editoração – 2020”.

Já o livro Sonoridades históricas de Minas colonial e imperial, escrito pela professora Andrea Adour da Linha de Pesquisa História e Documentação da Música Brasileira e Ibero-Americana em coautoria com os professores da Universidade Federal de Ouro Preto Cesar Maia Buscacio e Virginia Buarque, será lançado no dia 1° de setembro às 14 horas no Foyer do Salão Leopoldo Miguéz, também durante as comemorações pelos 174 anos da Escola de Música. Tendo como pano de fundo teórico mais geral a constatação do geógrafo Milton Santos de que uma paisagem qualquer não pode ser percebida apenas com o olhar, dado que é composta também por sons e outras expressões, e a consequente noção de que relacionar o lugar à sua sonoridade significa também descobrir a dimensão histórica dos sons e da escuta que possibilita o seu registro, os autores vão revisitar linguagens e tradições sonoras familiares, que estabelecem vínculos com o passado e conferem novos sentidos ao presente.

“Mas”, como adverte Martha Abreu em sua apresentação ao volume, “vale o aviso! O leitor não encontrará aqui apenas uma história pitoresca e amorfa dos sons. As sonoridades, com diferentes vozes, sons, barulhos, escutas e silêncios, são caminhos e suportes de muitas histórias de controle, de fortalecimento de hierarquias, conflitos, resistências e violências. Existem sons de revoltas contra os portugueses e contra os impostos; sons da insubordinação dos batuques proibidos; sons das modinhas sofisticadas e dos lundus das ruas. Existem também os sons do silêncio nos toques de recolher e nas proibições de encontros noturnos […] [e] os sons que representavam a desordem, a transgressão e a insubordinação de escravizados, índios, libertos e trabalhadores pobres”. A publicação deve-se ao apoio da FAPERJ através de seu Edital “Programa de Apoio à Editoração – 2021”, e constitui também um dos resultados do Estágio de Pós-Doutorado de Cesar Maia Buscacio no PPGM-UFRJ entre 2020 e 2021.

No dia 15 de setembro às 16 horas terá lugar, por sua vez, na sala 2116 da sede da Escola de Música na Edifício Ventura (Avenida República do Chile 330, Torre Leste, 21° andar), o lançamento do livro A harmonia de Jobim de Carlos Almada, professor da Linha de Pesquisa Poéticas da Criação Musical do PPGM-UFRJ. Fruto de Projeto de Pesquisa realizado entre 2017 e 2022 em parceria com o Instituto Antonio Carlos Jobim (IACJ) do Rio de Janeiro, o livro vem suprir uma lacuna na literatura sobre o compositor, cuja obra revela-se ainda carente de estudos técnicos que examinem com detalhamento e profundidade a estrutura de uma música mundialmente reconhecida por sua beleza e originalidade. Propondo um estudo teórico-analítico sobre a construção harmônica do compositor, o livro compõe-se de duas partes principais: a primeira apresentando modelos teóricos originais elaborados a partir do exame dos dados coletados em uma análise de 145 canções de Jobim e parceiros; a segunda dedicada à funcionalidade harmônica dos campos tonais e das relações entre regiões e ao peculiar modalismo jobiniano, alternando formulações conceituais e análises. Algumas abordagens específicas formam uma terceira parte do volume, considerando aspectos textuais, melódicos e alguns tópicos especiais (acordes com sexta, a estética blues, acordes híbridos etc.).

Em novembro (data a confirmar) realizar-se-á, por fim, o lançamento da muito aguardada tradução para o português da Storia della musica nel Brasile: dai tempi coloniali sino ai nostri giorni (1549–1925) de Vincenzo Cernicchiaro. Escrito em italiano e impresso em Milão em 1926, não obstante a cidadania brasileira do autor, o livro cedo converteu-se em peça fundamental dos estudos musicais brasileiros, informando todas as gerações posteriores de musicólogos do país. Figura de proa da vida musical do Segundo Reinado e da Velha República, com prestígio e força atuante junto às suas mais importantes instituições e personalidades, Cernicchiaro testemunhou um dos mais ricos períodos da história da música do país. Tal experiência, determinando sua forma mentis e a orientação geral de seu trabalho de pesquisa, levou a uma história marcada tanto por uma severa crítica da música coeva, quanto por um desmedido louvor de compositores de tempos pregressos, com a notável figura de Carlos Gomes ao centro.

Ao livro de Cernicchiaro faltava porém uma edição crítica e traduzida que o tornasse mais acessível a pesquisadores, estudantes e interessados lusófonos; preenchendo esta lacuna, a edição do professor João Vidal e do pesquisador de Pós-Doutorado do PPGM-UFRJ Giulio Draghi, vinculados à Linha de Pesquisa História e Documentação da Música Brasileira e Ibero-Americana do Programa, vem somar ao clássico texto um estudo introdutório inédito e algumas centenas de notas explicativas. Com apresentação de Antonio Alexandre Bispo, professor da Universidade de Colônia e presidente do ISMPS (Institut für Studien der Musikkultur des Portugiesischen Sprachraumes), a publicação foi realizada em coedição com a Fundação Biblioteca Nacional através de seu “Edital de Chamada Pública nº 02 CPE-2018”.

Referências

Araújo, Samuel. Samba, sambistas e sociedade: um ensaio etnomusicológico. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2021. 272 p. ISBN 978-65-88388-34-1.

Meirelles, Regina. Nos passos do samba: 300 anos de tradição. Rio de Janeiro: Oficina de Livros, 2022. 398 p. ISBN 978-65-00-40106-6.

Lana, Jonas Soares. Rogério Duprat, arranjos de canção e a sonoplastia tropicalista. Rio de Janeiro: Editora 7Letras. 288 p. ISBN 978-65-5905-352-0.

Adour, Andrea; Buscacio, Cesar Maia; Buarque, Virginia. Sonoridades históricas de Minas colonial e imperial. Rio de Janeiro: Editora Vermelho Marinho, 2022. 336 p. ISBN 978-65-86082-71-5.

Almada, Carlos. A harmonia de Jobim. Campinas: Editora da UNICAMP, 2022. 352 p. ISBN 978-85-26815-47-6.

Cernicchiaro, Vincenzo. História da música no Brasil: dos tempos coloniais aos nossos dias (1549–1925). Edição crítica, tradução, introdução e notas por Giulio Draghi e João Vidal, apresentação de Antonio Alexandre Bispo. Rio de Janeiro: Ricercare Editora e Fundação Biblioteca Nacional, Coordenadoria de Editoração, 2022. 800 p. ISBN 978-65-997335-0-5.

Escrito por PPGM-UFRJ

Programa de Pós-Graduação em Música da UFRJ