A canção brasileira urbana: origens e práticas (2017)

Projeto de pesquisa
Alberto Pacheco, docente responsável
Andrea Adour, docente
Diana Maron, mestranda
Ruthe Pocebon, mestranda

Introdução

Vários pesquisadores têm recentemente trabalhado sobre a canção no mundo lusófono, a partir de vários pontos de vista, como mostra o livro Palavra Cantada (MATOS; TRAVASSOS; MEDEIROS, 2008), ou o Por uma história do Fado (NERY, 2004), apenas para citar dois exemplos marcantes. Um exemplo marcante disso é o fato que, graças aos esforços de uma equipe liderada por Rui Vieira Nery, o Fado foi elevado ao estatuto de Património Cultural Imaterial da Humanidade, em 2011. Contudo, as canções do século XIX, incluindo aqui aquelas que seguem o estética eclética da Belle Époque e que podem ser vistas pelo menos até a primeira Grande Guerra, não receberam a mesma atenção. Isto é resultado da reconhecida negligência que este século tem sofrido por parte da musicologia portuguesa e brasileira durante muitas décadas (ver NERY; CASTRO, 1991, p.111). Por outro lado, devemos reconhecer que o estudo da música desse século tem merecido crescente interesse por parte da comunidade musicológica luso-brasileira. Além do trabalho deste pesquisador sobre os hinos patrióticos e modinhas, outros pesquisadores, tanto em Portugal quanto no Brasil, estão envolvidos nos estudos da canção, através da edição musical (PAIVA; CRANMER, 2006; MORAIS, 2000, PACHECO, 2009b, 2012a), da análise (VALENTIM, 2008; PACHECO, 2007) e da performance (ALFERES, 2008; PACHECO, 2009a, 2012b). Uma série de eventos científicos também têm contribuído consideravelmente para a área, como é o caso do Congresso Internacional “A Língua Portuguesa em Música” (http://www.caravelas.com.pt/eventos.html), ou do VOX:IA (http://www.iar.unicamp.br/voxia2013/).

Os estudos da canção também foram favorecidos pelo estreitamento de laços entre a musicologia brasileira e portuguesa. É cada vez mais aceito que é impossível compreender a vida musical em Portugal ou no Brasil corretamente, sem levar em conta a relação entre os dois países. No caso da canção, essas relações culturais assumem particular importância uma vez que os países partilham a mesma língua. No entanto, devemos reconhecer que os mais recentes avanços não conseguiram fornecer uma visão crítica e ampla do cancioneiro luso-brasileiro do longo século XIX, nem o situar consistentemente dentro do contexto internacional. Por exemplo, possíveis pontos de contato entre as canções luso-brasileiras e as francesas têm sido subestimados e não há nenhum trabalho que as coloque sistematicamente lado a lado. No entanto, são muitos os exemplos de canções brasileiras e portuguesas utilizando poemas franceses Da mesma forma, estudos mostram a influência dos ideais iluministas na produção musical luso-brasileira (CARVALHO, 1993; NETO, 2008), ou mesmo da presença de teatro musical francês (INACIO, 2013).

Por sua vez, a fecunda impressão musical brasileira durante o século XIX tem merecido alguns estudos valiosos (VOLPE, 2010) que atestam a importância de um repertório numeroso e variado. A canção urbana muito se beneficiou desta produção. Afinal, graças à atividade de editoras como a de P. Laforge e E. Bevilacqua que podemos ainda hoje interpretar algumas das canções que se ouviam nos salões oitocentistas brasileiros. Nesse contexto, os periódicos musicais têm especial importância, por sua própria perenidade e disseminação nacional – o que já pôde ser comprovado por nossos estudos mais recentes. No entanto, embora os periódicos musicais tenham atraído alguma atenção (CASTAGNA, 2006; ALBUQUERQUE, 2006; ANDRADE, 1988), eles não foram analisados em profundidade, nem foram alvo de edições musicais, ou de trabalho sistemático no campo da performance.

Tendo em conta o estado da arte descrito, neste projeto, propõe-se:

  1. Analisar as canções publicadas no Brasil antes da segunda grande guerra do ponto de vista musical, literário e da performance, contribuindo para aprofundar o conhecimento que se tem da história da canção no Brasil (tanto a dita “erudita” quanto a “popular”), e para solucionar desafios técnicos e estilísticos com os quais o intérprete de nossos dias se depara quando busca uma interpretação historicamente orientada desse cancioneiro.
  2. Divulgar o cancioneiro brasileiro a nível nacional e internacional através de concertos, edições críticas e gravações.
  3. Identificar as editoras e os periódicos brasileiros em atividade no período em questão que publiquem canções.
  4. Avaliar o papel das tradições europeias, africana e americanas na prática e na interpretação do cancioneiro.
  5. Avaliar impacto da introdução do uso do microfone, dos meios de reprodução fonográfica e do rádio para a prática do repertório em questão.
  6. Contribuir para o melhor entendimento da música doméstica e urbana no Brasil.
  7. Aprofundar o conhecimento que se têm sobre o estilo e técnica de canto que era empregado pelos intérpretes daqueles dias. Da mesma forma, a prática vocal destes cantores, sua formação e atuação musical como um todo são de interesse, ao fornecer subsídios para uma interpretação historicamente melhor informada do cancioneiro em questão.
  8. Contribuir para o desenvolvimento de um Grupo de Estudos da Canção no âmbito do Programa de Pós-graduação da Escola de Música da UFRJ.

Objetivos

O objetivo deste projeto é analisar, editar e interpretar e gravar o cancioneiro em circulação no Brasil antes da segunda grande guerra. É bom ressaltar que todo o processo de análise musicológica e de edição crítica aqui proposto tem como objetivo primeiro a execução e a eventual gravação do repertório, o que insere este projeto no âmbito da pesquisa em práticas interpretativas.

A prática vocal brasileira oitocentista e das primeiras quatro décadas do século XX, tanto nos seus elementos técnicos quanto estilísticos, é a base para todo o trabalho de interpretação proposto. Consequentemente, um de nossos objetivos também é dar continuidade e aprofundar nossa pesquisa acerca da técnica e da arte dos cantores daqueles dias.

Num contexto mais alargado, um dos objetivos é a divulgação do respectivo repertório a nível nacional e internacional. Outro é contribuir para o melhor entendimento da música doméstica e/ou urbana no Brasil durante o período em questão, na medida que pretende reunir informações relevantes a respeito da gênese da canção brasileira, seja a dita “popular” ou aquela “erudita”.

Embora este projeto pretenda fazer uma contribuição significativa para os estudos da canção, ele não tem a intenção de esgotar o assunto, ou mesmo de contar a história da canção brasileira. Afinal, para isso, seria necessário realizar uma pesquisa bem mais ampla, ao nível de um grupo de pesquisa sobre a canção. Tendo isso em conta, um dos objetivos deste projeto é justamente contribuir para a implementação de um Grupo de Estudos da Canção no âmbito do Programa de Pós-graduação da Escola de Música da UFRJ, no qual seria possível avaliar a canção brasileira do ponto de vista da performance, da história, da estética, da educação e da criação. Para tanto, pretende também despertar o interesse de novos estudantes/pesquisadores a respeito dos estudos da canção e da prática vocal no Brasil.

Justificativa

Vários pesquisadores têm recentemente trabalhado sobre a canção brasileira – ou luso-brasileira, se levarmos em conta o período colonial e os estreitos laços estabelecidos pela lusofonia. Entretanto, as canções do século XIX e aquelas que seguiram o estilo eclético e internacionalista da Belle Époque, não receberam a mesma atenção. Isto é resultado da reconhecida negligência que este século tem sofrido por parte da musicologia portuguesa e brasileira. Também contribuíram para isso os preconceitos nacionalistas do século XX que, num juízo de valor anacrónico, taxaram como “importada” e sem valor grande parte das canções compostas nesse período simplesmente por estas composições não estarem em acordo com os ideais preconizados por eles.

O fato é que não foi possível ainda fornecer uma visão crítica e ampla do cancioneiro em circulação no Brasil antes da segunda grande guerra, nem o situar consistentemente dentro do contexto internacional. Portanto, esse projeto se justifica na medida que tenta agregar conhecimento numa área pouco explorada. Da mesma forma, ele se justifica tanto pela importância histórica e artística do repertório em questão, quanto por propor uma aproximação sob três pontos de vista: o analítico/histórico, o da edição crítica, e o da execução musical. Além disso, os concertos, gravações, artigos científicos e edições aqui previstos vão contribuir para o melhor entendimento, resgate e divulgação do patrimônio musical brasileiro.

Hipótese

A análise e a execução de algumas canções do século XIX e outras outras do início do século passado que não seguem a estética do nacionalismo modernista levantou a hipótese de que esse repertório era muito mais variado e artisticamente muito mais interessante do que se poderia supor com base apenas no que é dito pela literatura especializada. Também tem sugerido que este repertório exige uma postura técnica e interpretativa particular por parte dos músicos, na medida que é produto de uma realidade histórica, técnica e musical bastante diferente da atual. Estas hipóteses serão levadas adiante e testadas no decorrer do trabalho aqui proposto.

Metodologia

No que diz respeito à análise proposta, o método usado será o seguinte. As canções serão identificadas e caracterizadas. Será elaborada uma base de dados de canções com as seguintes entradas:

  • Título
  • Gênero
  • Compositor
  • Poeta
  • Série/periódico
  • Editor
  • Local de publicação
  • Ano
  • Acervo e Cota

No período de atividades previsto neste projeto, o repertório considerado será aquele mantido nos acervos cariocas, em especial o da Biblioteca Nacional e da Biblioteca Alberto Nepomuceno. Serão priorizadas as canções publicadas antes da segunda grande guerra, por considerarmos que até aí permanecem bastante presentes algumas práticas herdadas do século XIX, bem temos o processo de assimiliação de algumas novidades tecnológicas como o uso do microfone, do rádio e da reprodução fonográfica, o que viria a influnciar profundamente a prática vocal. No entanto, repertório de outros períodos históricos pode vir a ser considerado caso a colaboração com outros pesquisadores torne isso viável, ou se o próprio desenrolar da pesquisa isto exigir.

Durante o trabalho de localização do repertório, faremos também sua experimentação prática. As canções que se mostrarem mais interessantes serão apresentadas em forma de concerto.

Obviamente, não será possível nos atermos a todas as canções. Assim, a análise mais profunda e a consequente performance terão que se restringir a uma seleção representativa do repertório localizado, que será distribuída de forma equilibrada no tempo. A escolha das canções seguirá critérios como qualidade técnica e estética, importância do compositor e do poeta, o sucesso da canção no seu próprio tempo, e sua representatividade dentro de um determinado gênero.

As músicas selecionadas serão analisadas partir de três pontos de vista – texto, música e performance – tendo o cuidado de considerá-las dentro de seus respectivos contextos sociais e históricos. Assim, além da análise melopoética, cada canção será abordada como a música a ser executada (STEIN, 1996; ELLIOTT, 2006). Este tipo de análise é essencial para ir além da própria partitura e se aproximar do objeto sonoro real que ela representa graficamente.

No processo de execução do repertório, levaremos em conta o estilo e a técnica vocal da época. Assim, será necessário nos informar o melhor possível acerca da prática vocal oitocentista. Isto representa uma continuidade da pesquisa já exposta em trabalhos anteriores (PACHECO, 2006, 2009a) e seguirá uma metodologia similar: a leitura crítica de tratados de canto, de críticas musicais, de testemunhos, de métodos de ensino de música etc. Uma vez que os modelos europeus, especialmente o italiano, são importantes referências para a prática vocal no Brasil, seus ideais estéticos e expedientes técnicos em uso no século XIX serão considerados, sempre tomando o cuidado de relativiza-los e testar sua validade dentro da realidade brasileira. Assim, a literatura e o repertório musical pertinentes/correspondentes, produzido na Europa dos oitocentos, podem ser considerados em nossa busca por subsídios para interpretação.

É preciso ainda salientar que a canção dialoga profundamente com a produção teatral (árias de ópera, por exemplo). Assim será necessário ter em conta o repertório teatral e seus pontos de contato com a canção câmara propriamente dita. Neste caso, é preciso avaliar em que medida a técnica e o estilo operáticos se acomodam na execução do cancioneiro.

Alunos graduação e pós-graduação, além de outros colegas pesquisadores, podem vir a colaborar nesse projeto, seja na localização, avaliação e performance do repertório, seja na pesquisa sobre a técnica e o estilo de canto que lhe são correspondentes.

Dentro desta metodologia, este projeto de pesquisa prevê as seguintes tarefas:

  1. A publicação de textos científicos à medida que a investigação for dando frutos.
  2. Participação em reuniões científicas, a fim de divulgar os resultados da pesquisa
  3. Elaboração de antologia de canções. Estas antologias vão reunir algumas das canções analisadas em formato de edição crítica e comentada. O texto poético irá incluir a tradução para o Inglês, além de uma transcrição fonética após o IPA (alfabeto fonético internacional), a fim de facilitar o acesso desse material por cantores situadas além do mundo lusófono. Uma análise geral será dada em um ensaio introdutório também bilíngue.
  4. Preparação e execução de concertos a serem realizados na Escola de Música de UFRJ, ou em qualquer outro palco no Rio de Janeiro, e que poderão ser repetidos em salas de concerto de outras localidades que se mostrarem interessadas, tanto no Brasil quanto no exterior. Caso se mostre viável, esses concertos poderam dar origem a registros fonográficos como CDs e vídeos.

Cronograma

Período Atividade
2017-2 1.      Análise e localização do repertório

2.      Preparação/execução do 1º recital

3.      Elaboração de artigos sobre o repertório e a prática vocal correspondente

2018-1 1.      Análise e localização do repertório

2.       Preparação/execução do 1º recital

3.      Finalização de primeira antologia de canções.

4.      Elaboração de artigos sobre o repertório e a prática vocal correspondente

2018-2 1.      Análise e localização do repertório

2.      Preparação/execução do 2º recital

3.      Elaboração de artigos sobre o repertório e a prática vocal correspondente

2019-1 1.      Análise e localização do repertório

2.      Preparação/execução do 2º recital

3.      Finalização de primeira antologia de canções.

4.      Elaboração de artigos sobre o repertório e a prática vocal correspondente

Referências Bibliográficas

ALBUQUERQUE, Maria João Durães. A edição musical em Portugal (1750-1834). Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2006.

ALFERES, Sidney. A “Collecção de Modinhas de Bom Gosto” de João Francisco Leal : um estudo interpretativo por meio de sua contextualização historico-estetico-musical. Thesis (master). Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2008. (available at: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000473473)

ANDRADE, Isabel Freire de. “Portuguese Music Periodicals”. Supplement of Fontes Artis Musicae. Vol. 35/3, 1988.

CARVALHO, Mario Vieira de. Pensar é morrer ou o teatro de São Carlos na mudança de sistemas sociocomunicativos desde fins do séc. XVIII aos nossos dias. Lisboa: Impressa Nacional/Casa da Moeda, 1993.

CASTAGNA, Paulo. “Periódicos musicais brasileiros no contexto das bibliografias e bases de dados na área de música.” In: Anais do VII Encontro de Musicologia Histórica. Juiz de Fora: Centro Cultural Pró-Música, 2006.

ELLIOTT, Martha. Singing in Style: a guide to vocal performance pratices. New Haven: Yale University Press, 2006.

INACIO, Denise Scandarolli. Cenas esquecidas ou Vaudeville, opéra-comique e a transformação do teatro no Rio de Janeiro, dos anos 1840. Doctoral Thesis. Campinas: UNICAMP, 2013.

MORAIS, Manuel. Modinhas; lunduns e cançonetas. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2000.

NERY, Rui Vieira. Para uma história do fado. Lisboa: Público/Corda Seca, 2004.

NERY, Rui Vieira; CASTRO, Paulo Ferreira de. History of music. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1991. p. 111)

MATOS, Cláudia Neiva de; TRAVASSOS, Elizabeth; MEDEIROS, Fernanda Teixeira de (org.). Palavra cantada: ensaios sobre poesia, música e voz. Rio de Janeiro: 7 Letras; Faperj, 2008.

NETO, Diósnio Machado. Administrando a festa: Música e iluminismo no Brasil colonial. Doctoral Thesis. São Paulo: USP, 2008.

PAIVA, Rejane; CRANMER. David (ed.). Portugal, Marcos. Modinhas para uma ou duas vozes e instrumento de tecla. Lisboa: Instituto das Artes, 2006.

PACHECO, Alberto José Vieira. “O Álbum Melodias Brasileiras de José Amat: um exemplo do nacionalismo musical brasileiro pré-andradiano”. Brasiliana, Academia Brasileira de Música, n. 25, jun. 2007.

__________. O canto antigo italiano: uma análise comparativa dos tratados de canto de Pier Tosi, Giambatista Mancini e Manuel P. R. Garcia. São Paulo: Annablume, Fapesp, 2006.

__________. Castrati e outros virtuoses: a prática vocal carioca sob a influência da corte de D. João VI. São Paulo: Annablume, Fapesp, CESEM, 2009a.

__________.“Hino para a Aclamação de D. João VI: edição e contextualização (com partitura inédita)”. Opus, vol. 18, p. 41-72, 2012a. (Available at: http://www.anppom.com.br/opus/data/issues/archive/18.1/files/OPUS_18_1_Pacheco.pdf)

__________. “A Modinha estrófica: questões sobre sua interpretação e edição”. In.: Entre gritos e sussuros: os sortilégios da voz cantada. Heloísa de A. Duarte Valente; Juliana Coli (org.). São Paulo: Letra e Voz, 2012b.

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STEIN, Deborah J.; SPILLMAN, Robert. Poetry into song: performance and analysis of Lieder. New York. Oxford: Oxford University Press, 1996.

VALENTIM, Maria José Quaresma de Carvalho Alves Borges. A Produção musical de índole política no período liberal (1820-1851). Thesis (master). Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 2008.

VOLPE, Maria Alice. “Music publishing in Nineteenth-Century Rio de Janeiro: music making, cultural values, and the new market”. In: Instrumental music and the industrial revolution. Bologna: Orpheus Edizioni, 2010.