A música alemã no Brasil, 1870-1945. Ideias – funções – transferências

Projeto de pesquisa
João Vidal, docente responsável
Vilane Andrade, mestranda

Como um dos problemas centrais da história intelectual brasileira, a questão da importação e assimilação de ideias estrangeiras tem sido tratada de variadas formas desde pelo menos o século XIX: como um obstáculo à formação da identidade nacional, como um meio indispensável para o mesmo fim, ou (em superação de abordagens extremas) simplesmente como um ‘falso problema’. Constituindo também um traço permanente da história da música do país, a questão suscitou no campo interpretações igualmente variadas, que demandam hoje uma revisão musicológica capaz de compreender o fenômeno desde suas próprias condições históricas e pressupostos culturais.

O projeto pretende contribuir para esta revisão colocando em foco um capítulo central do diálogo cultural Brasil-Europa – as relações musicais Brasil-Alemanha – em um período igualmente central da história da música do país, que estende-se de 1870 a 1945 e engloba portanto a atividade criadora de nomes como Leopoldo Miguéz, Henrique Oswald, Alberto Nepomuceno, Francisco Braga, Glauco Velásquez e Heitor Villa-Lobos.

Seu objetivo torna-se assim compreender o papel da música austro-germânica em uma fase determinante da música brasileira: que ideias ofereceu, que funções desempenhou, como (e porque) foi transferida para o novo contexto. Estes três aspectos interdependentes são investigados através do estudo e comparação de casos históricos singulares, que confrontados possibilitam explicações e generalizações sobre a forma como a música alemã foi fomentada, discutida, assimilada e finalmente transformada nas mãos de alguns dos mais destacados compositores brasileiros do período.

São exemplos de questões a se examinar, entre muitas: O Club Beethoven, o Instituto Nacional de Música e outros centros difusores da cultura musical germânica no Rio de Janeiro; O ‘germanismo’ no Brasil e seu impacto na música; A recepção de Bach no Brasil de Nepomuceno a Villa-Lobos; Beethoven, Brahms e as formas-sonata brasileiras de Miguéz a Oswald; A música sinfônica e de câmara brasileira (vocal e instrumental) e seus modelos germânicos; O poema sinfônico brasileiro: Ecos e reflexos da ‘Nova Escola Alemã’; O wagnerismo no Brasil; A recepção de Schönberg no Brasil de Nepomuceno a Koellreutter.

A pesquisa vincula-se à Linha de Pesquisa “História e Documentação da Música Brasileira e Ibero-americana” do Programa de Pós-graduação em Música da Escola de Música da UFRJ e tem como principal acervo de referência a coleção de manuscritos musicais e obras raras da Biblioteca Alberto Nepomuceno da Escola de Música da UFRJ.

Referências

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