A poética da mente musical: semântica cognitiva e processos criativos

Projeto de pesquisa
Marcos Nogueira, docente responsável
Eduardo Biato, doutorando
Marcia Hallak, doutoranda
Willian Fernandes, doutorando
Caoqui Sanches, mestrando
Mauro Orsini, mestrando

Apresentação

Reivindicando, tal como fez o formalismo oitocentista, uma fundamentação científica para a percepção estética da música e para o exame da origem do sentido musical, salienta-se no presente projeto a importante colaboração da psicologia cognitiva com o desenvolvimento do formalismo musical, desde o final do século XIX — sobretudo a partir da psicologia da forma das primeiras décadas do século passado.

Contudo, pressupõe-se aqui que somente com a emergência da pesquisa em cognição incorporada (ciência cognitiva enacionista) é que se tornou possível construir uma fundamentação mais adequada para o desenvolvimento de uma semântica do entendimento musical. Esse referencial teórico-metodológico pôde, enfim, superar o paradigma que coloca o conhecimento na condição de representações que o cérebro faz de um mundo predeterminado observado pelo indivíduo.

Em vez disso, o processo cognitivo implicaria a construção de um mundo, e essa construção dá-se por meio de interações dinâmicas do indivíduo com um mundo a ele congruente: a experiência é o lugar de toda unidade cognitiva e a percepção é o princípio de toda experiência. Perceber é assim um modo de atuar; a percepção é uma simulação interior da ação e um exercício de antecipação dos efeitos da ação.

É plausível, pois, investigar, à luz da ciência cognitiva enacionista, os fundamentos que embasaram o conhecimento sobre forma na Musicologia, a fim de conhecer as potencialidades desse sistema numa ótica distinta daquela sob a qual vem sendo abordado e atualizado desde então, mas principalmente a fim de esclarecer as deficiências que o mantiveram restrito à prática descritiva de uma sintaxe da obra musical.

Estamos diante da tradicional controvérsia linguística entre uma semântica formal, que em música apontaria diretamente para o campo da referenciação (expressão, ideias, sentimentos, representação, simbolismo), recorrentemente abordado pela teoria musical moderna, e uma semântica cognitiva, comprometida com o “como” construímos o sentido musical, isto é, com o estudo dos processos cognitivos pelos quais organizamos formalmente os eventos musicais no ato da escuta — aquilo que as estéticas modernas jamais cogitaram.

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