Cognição Musical em Processos Criativos – CMPC

Marcos Nogueira, coordenador
Guilherme Bertissolo, membro externo (UFBA)
Yahn Wagner Pinto, membro externo (UFRJ, doutorando)
Gustavo Ballesteros, membro externo (UFRJ, mestre)
Anderson Alves, discente (UFRJ, doutorando)
Alexandre Ferreira, discente (doutorando)
Eduardo Torres, discente (mestrando)
Nilo Rafael, discente (mestrando)
João Gabriel Ferrari, discente (graduando)

Apresentação

O crescente interesse da comunidade científica, sobretudo a partir dos anos 1980 e 1990, pelos avanços da ciência cognitiva incorporada e as consequentes investigações acerca das relações das experiências sensório-motoras com a formação do sentido em música, resultaram na construção do paradigma da mente musical incorporada. O conceito de incorporação neste âmbito supõe que aquilo que ocorre na mente está diretamente associado e depende das propriedades—tais como as cinestésicas—e condições do nosso corpo. Assim sendo no campo de estudos em cognição musical incorporada entende-se a percepção como algo baseado em ação.

No Brasil, os resultados das pesquisas em Cognição Musical vêm sendo comunicados em diversos eventos científicos, mas, sobretudo, no Simpósio de Cognição e Artes Musicais, cuja primeira edição ocorreu em 2004, em Curitiba, dando origem à Associação Brasileira de Cognição Musical – ABCM. No mesmo ano, o coordenador da presente proposta doutorou-se, defendendo tese no domínio da cognição musical, e passou a publicar os resultados dessa pesquisa em congressos como os da ANPPOM (2001, 2003, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2011, 2013), ABCM (2006, 2007, 2008, 2009, 2011, 2012, 2015) e TeMA (2014), além de publicá-los como capítulos dos livros Mentes em Música (UFPR), A mente musical (UnB), O pensamento musical criativo (TeMA), e como artigos de periódicos científicos como Música Hodie, Claves, Música em Perspectiva, ouvirOUver e Música em Contexto. Essa bibliografia é pioneira no contexto brasileiro de pesquisa em Música, e é responsável pela apresentação do paradigma da cognição musical incorporada à área de Música no país.

A criação do CMPC representa a consolidação dessa produção acadêmica pioneira, sobretudo, no campo de pesquisa em processos criativos, em nosso país. O coordenador da presente proposta foi membro da diretoria da ABCM no triênio 2008-2011 e é editor de Percepta – Revista de Cognição Musical, periódico eletrônico da ABCM, publicado desde 2013. Acreditamos que a publicação dos resultados da produção do CMPC contribuirá efetivamente para tornar o PPGM-UFRJ um dos centros de pesquisa de destaque em Cognição Musical no Brasil.

Objetivo Geral

Explorar o estado atual da ciência cognitiva (sobretudo seus vieses psicológicos, linguísticos, filosóficos e neurofisiológicos) relacionada à pesquisa em cognição musical, promovendo a atualização desse conhecimento e sua difusão, a partir do exame crítico das questões e problemas levantados, recentemente, pela área, visando ao duplo escopo de justificar (1) a importância da pesquisa em cognição musical para a pesquisa cognitiva em geral, e (2) o papel essencial da pesquisa em cognição musical para o avanço do conhecimento acerca do sentido da música, base do desenvolvimento de projetos de pesquisa e extensão que deverão resultar em parcerias e intercâmbios com outros grupos de pesquisa e instituições nacionais estrangeiras.

Objetivos Específicos

  1. Semântica Cognitiva da Música: estruturar e desenvolver projetos em semântica cognitiva da música, com ênfase na fundamentação conceitual distintiva do paradigma enacionista (cognição musical incorporada), visando à publicação sistemática dos resultados das investigações;
  2. Cognição Musical e Interfacesdesenvolver teoria sobre as interfaces da poética da mente musical com os objetos da psicologia cognitiva (affordances, memória, psicoanálise da música, psicoacústica, teorias gerativas, indução de pulso, expectativa, emoção, desenvolvimento, motivação), da linguística cognitiva (psicolinguística, sintaxe, semântica cognitiva, metáfora conceitual, gesto), da filosofia cognitiva (estética musical) e das neurociências (bioacústica, entrainment, processamento melódico, controle motor, organização espacial, interações sensório-motoras, emoção, atenção, amusia, distonia, ouvido absoluto, imagem auditiva/audiation, efeitos terapêuticos), propiciando contatos, intercâmbios e parcerias com pesquisadores e instituições afins;
  3. Protocolos de pesquisa cognitiva: desenvolver protocolos de pesquisa para a investigação dos atos criativos e perceptivos relacionados à experiência da música como foco da atenção (experiências de composição, de interpretação/performance, de escuta e de interação/reconfiguração) e como componente de experiências audiovisuais complexas.

Projeto de Pesquisa

O projeto de pesquisa central que orienta a direção das pesquisas do CMPC é intitulado A poética da mente musical: semântica cognitiva e processos criativos, coordenado pelo proponente do presente GP, e vinculado ao PPGM-UFRJ, desde agosto de 2014.

Descrição e referencial teórico

Reivindicando, tal como fez o formalismo oitocentista, uma fundamentação científica para a percepção estética da música e para o exame da origem do sentido musical, salienta-se no presente projeto a importante colaboração da psicologia cognitiva com o desenvolvimento do formalismo musical, desde o final do século XIX sobretudo a partir da psicologia da forma das primeiras décadas do século passado. Contudo, pressupõe-se aqui que somente com a emergência da pesquisa em cognição incorporada (ciência cognitiva enacionista) é que se tornou possível construir uma fundamentação mais adequada para o desenvolvimento de uma semântica do entendimento musical. Esse referencial teórico-metodológico pôde, enfim, superar o paradigma que coloca o conhecimento na condição de representações que o cérebro faz de um mundo predeterminado observado pelo indivíduo. Em vez disso, o processo cognitivo implicaria a construção de um mundo, e essa construção dá-se por meio de interações dinâmicas do indivíduo com um mundo a ele congruente: a experiência é o lugar de toda unidade cognitiva e a percepção é o princípio de toda experiência.

Perceber é assim um modo de atuar; a percepção é uma simulação interior da ação e um exercício de antecipação dos efeitos da ação. No âmbito enacionista, pois, percepção é algo que fazemos ativa e decididamente num mundo que se nos apresenta disponível, no qual somos capazes de nos movimentar corporalmente e assim interagir com ele.

Justificativa e objetivos

É plausível, pois, investigar, à luz da ciência cognitiva enacionista, os fundamentos idealistas que embasaram o sistema formalista original da Musicologia, a fim de conhecer as potencialidades desse sistema numa ótica distinta daquela sob a qual vem sendo abordado e atualizado desde então, mas principalmente a fim de esclarecer as deficiências que o mantiveram restrito à prática descritiva de uma sintaxe da obra musical. Os objetivos específicos do projeto estão vinculados às seguintes questões acerca do conhecimento formal de uma obra musical: que aspectos de certo segmento da obra possibilitam a inferência de suspensão (desequilíbrio ou incompletude) ou de conclusão (equilíbrio ou completude) formal da obra?, ao ouvir pela primeira vez uma obra, que aspectos possibilitam prever (antecipar imaginativamente) o momento de um primeiro fechamento formal desta obra?, que aspectos de certo segmento da obra possibilitam inferir que se trata de da abertura ou do seguimento conclusivo da obra?, como podemos perceber como coerente certa obra de longa duração, se não a temos inteiramente na experiência presente, em escuta ou em memória? Estamos, portanto, diante da tradicional controvérsia linguística entre uma semântica formal, que em música apontaria diretamente para o campo da referenciação (expressão, ideias, sentimentos, representação, simbolismo), recorrentemente abordado pela teoria musical moderna, e uma semântica cognitiva, comprometida com o como construímos o sentido musical, isto é, com o estudo dos processos cognitivos pelos quais organizamos formalmente os eventos musicais no ato da escuta aquilo que as estéticas modernas jamais cogitaram.

Resultados

Uma semântica cognitiva de base enacionista promete contribuir, portanto, com a fundamentação das respostas às questões acima formuladas, a partir de estudos como o do mapeamento de correspondências que estrutura nossas projeções metafóricas, especificamente a investigação da percepção de movimento, de espacialização, de agrupação, de limite (cesura), de simetria, de centralidade, de ciclicidade, de direcionalidade, de verticalidade, de profundidade, de finalidade, dentre outros fatores de constituição formal em música.

Referências

BREGMAN, Albert S. (1999). Auditory scene analysis: the perceptual organization of sound. Cambridge, MA: MIT Press. (Original publicado em 1990).

EDELMAN, Gerald. (1992). Bright air, brilliant fire: on the matter of the mind. New York: Basic Books.

EDELMAN, Gerald. & TONONI, Giulio. (2000). A universe of consciousness: how matter becomes imagination. New York: Basci Books.

GIBBS, Raymond W. (1994). The poetics of mind: figurative thought, language, and understanding. Cambridge: Cambridge University Press.

______. (1999). Intentions in the experience of meaning. Cambridge: Cambridge University Press.

______. (2006). Embodiment and cognitive science. Cambridge: Cambridge University Press.

GRADY, Joseph. (1998). The conduit metaphor revisited: a reassessment of metaphors for communications. In: Koenig, J-P. Discourse and cognition: bridging the gap. Cambridge: Cambridge University Press.

FAUCONNIER, Gilles. (1985). Mental spaces: aspects of meaning construction in natural language. Cambridge: MIT Press.

______. (1997). Mappings in thought and language. Cambridge: Cambridge University Press.

JOHNSON, Christopher. (1997). Metaphor vs. conflation in the acquisition of polysemy. In M. K. Hiraga, C. Sinha e S. Wilcox (Eds.) Cultural, typological and psychological issues in cognitive linguistics. Current issues in linguistic theory, 152. Amsterdam: John Benjamins.

JOHNSON, Mark. (1990). The body in the mind: the bodily basis of meaning, imagination, and reason. Chicago: University of Chicago Press. (Original publicado em 1987)

LAKOFF, George. (1988). Cognitive semantics. In: Eco, Umberto, Santambrogio, Marco & Violi, Patrizia (Ed.). Meaning and mental representations. Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press.

LAKOFF, George & JOHNSON, Mark. (1980). Metaphors we live by. Chicago and London: University of Chicago Press.

______. (1999). Philosophy in the flesh: the embodied mind and its challenge to western thought. New York: Basic Books.

MERVIS, C. e ROSCH, E. (1981). Categorization of natural objects. Annual Review of Psy-chology 32, 89-115.

PASHLER, Harold E. (1999). The psychology of attention. Cambridge, MA: MIT Press.

REDDY, M. (1993). The conduit metaphor. In Andrew Ortony (Ed.) Metaphor and thought. Cambridge: Cambridge University Press, pp. 164-201. (Original publicado em 1979)

ROSCH, Eleanor. (1978). Principles of categorization. In: E. Rosch e B. Lloyd (Eds.) Cognition and categorization, 27-48. Hillsdale, N. J.: Erlbaum Associates.

SEARLE, John. (1983). Intentionality: a essay in the philosophy of mind. Cambridge: Cambridge University Press.

SNYDER, Bob. (2000). Music and memory: a introduction. Massachusetts: The Massachusetts Institute of Technology Press.

CMPC no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq