Educação musical, musicalidade abrangente e diversidade cultural

Thelma Sydenstricker Alvares, coordenadora
Sergio Alvares, vice-coordenador
Paulo Duarte Amarante, membro externo (FIOCRUZ/ENSP/LAPS)
João Miguel Bellard Freire, docente
Jeanine Bogaert, membro externo (FIOCRUZ/Escola de Ensino Médio)
João Gomes, discente (graduando)
Michele Senra, discente (mestrando)
Raquel Lyrio, discente (mestrando
Reinaldo Souza, discente (mestrando)

Apresentação

Este grupo de pesquisa é o resultado do amadurecimento da produção acadêmica desenvolvida tanto por docentes e discentes do programa de pós-graduação da Escola de Música, assim como por pesquisadores externos que vêm colaborando com nosso trabalho nos últimos anos. Recentemente alguns pesquisadores deste grupo elaboraram o livro Educação Musical na Diversidade: Construindo um olhar de Reconhecimento Humano e Equidade Social em Educação que discute a interação entre música, educação e as diferentes expressões da diversidade cultural de nosso país tendo como foco, mas não como tema exclusivo, a educação musical de grupos em vulnerabilidade e risco social, bem como a abrangência das formas de produção, transmissão e aquisição do conhecimento musical eminentes da diversidade etnográfica das vivências musicais no Brasil.

A Educação Musical na Diversidade (Alvares, 2012) parte do pressuposto de que o ser humano possui uma natureza complexa sendo inerente sua tendência em diferenciar-se dos demais. Isto inclui o sofrimento psíquico, a deficiência sensorial, física, intelectual, condições médicas, situações específicas de isolamento social (por exemplo: prisões, casa de passagem e abrigos) como também diferenças religiosas, culturais, de gênero, étnicas, sexuais, econômicas, isto é, diversos aspectos que caracterizam os seres humanos. No entanto, é importante ressaltar que estas diferenças não estão desvinculadas de uma dinâmica social que possa desfavorecer, ou favorecer, determinados grupos sociais. Segundo Cambria (2008) as diferenças muitas vezes são vinculadas a, ou mesmo consequências de relações assimétricas de poder que geram desigualdade social.

Propomos, aqui, o conceito de Educação Musical na Diversidade que se contrapõe às propostas educacionais da contemporaneidade, em sua maioria calcadas na inclusão. Por mais que o discurso da inclusão pretenda tornar a educação um espaço que acolha a todos, isto não ocorre na prática. A Educação Musical na Diversidade se baseia no reconhecimento e respeito pelas mais diferentes situações e características humanas, sejam estas deficiências ou não. Buscamos a equidade, a validação das diferenças humanas através de um reconhecimento respeitoso às nossas peculiaridades, tanto individuais, quanto de grupos específicos. Acreditamos também que a produção do conhecimento envolva a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão o que caracteriza a proposta deste grupo.

No tangente à educação musical, parte-se de um conceito transversal intitulado Musicalidade Abrangente (Alvares, 2015) que propõe uma transdisciplinaridade nos processos de ensino e aprendizagem da música. Identificamos que a música, como área de conhecimento, fragmentou-se em disciplinas no decorrer de sua inclusão na educação formal. Embora tal fragmentação possa ser conveniente a um aprofundamento especializado, este processo educativo resulta, muitas vezes, numa formação dissociada do saber integral. A partir da prática docente, o educador vai reconstruindo, em sala de aula, a reunificação daquele saber que lhe foi ensinado de forma fragmentada. Nos processos informais de educação musical, o saber musical costuma ser vivenciado e desenvolvido de forma mais integralizada. A partir de uma transdiciplinaridade nas práticas interpretativas (cantar, tocar, improvisar, etc.), criativas (compor, arranjar, orquestrar, etc.) e sensoriais/auditivas (apreciação, identificação, aspectos histórico-crítico-sociais, etc.), a proposta da Musicalidade Abrangente, fomenta uma vivência musical abrangente, consubstancial e unificada. Busca-se uma unidade do saber musical na diversidade etnográfica das práticas musicais.

Atualmente as políticas recentes de Saúde e Educação do Brasil indicam a busca de uma ampliação de ações que valorizem a diversidade de manifestações culturais, artísticas e a produção de cultura como meio de promoção de saúde mental (BRASIL, 2005; BRASIL, 2010). Acreditamos que a UFRJ também caminha nesta direção. Recentemente, o Fórum de Ciência e Cultura elaborou, junto à comunidade acadêmica, uma Política Cultural, Artística e de Difusão Científico-Cultural para a Universidade que visa tanto a valorização como a interação entre as múltiplas formas de conhecimento, expressão artística e cultural buscando uma aproximação da comunidade acadêmica com a sociedade. Isto fica claro com a iniciativa do Fórum em realizar, em julho de 2015, o primeiro Festival Interuniversitário de Cultura; uma iniciativa das universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro em buscar um diálogo com a cidade e com suas múltiplas expressões artísticas e culturais. Alguns projetos de docentes deste grupo, vinculados tanto a atividades de pesquisa como de extensão e ensino, fizeram parte da programação do evento.

Justificativa
O processo de desvalorização cultural e exclusão social fazem parte da realidade vivida por indivíduos que são discriminados, ou estigmatizados, sejam por questões raciais, étnicas, sexuais, religiosas, culturais, por estarem em situação extrema de pobreza, por serem sujeitos em sofrimento psíquico, com algum tipo de deficiência, ou pela combinação destes fatores. Acreditamos que a Universidade pública tenha uma responsabilidade ética e social em gerar conhecimento crítico que contribua com a transformação social. Para tanto é importante dialogar com expressões da diversidade cultural, característica marcante do Brasil, a fim de promover uma educação musical que contribua com esta transformação social.

Objetivo geral

Desenvolver pesquisas em educação musical, que estarão associadas a projetos de extensão e ensino, baseados no diálogo entre música, educação e expressões da diversidade cultural.

Objetivos específicos

  1. Ampliar a participação acadêmica nos movimentos e ações que visam à inserção de pessoas ou grupos discriminados, ou com acesso restrito à Universidade, seja por diferenças culturais, religiosas, de gênero, étnicas, sexuais, econômicas ou por serem pessoas em sofrimento psíquico, com deficiência sensorial, física, intelectual, médica ou por estarem em condições específicas de isolamento social (prisões, casa de passagem e abrigos).
  2. Gerar uma interação dos alunos da pós-graduação com os de graduação em projetos de pesquisa e extensão, assim como no ensino.
  3. Contribuir com a formação de educadores musicais aptos a trabalhar com as expressões da diversidade cultural de nosso país.
  4. Buscar o engajamento da Universidade com diversas expressões da diversidade cultural através de ações em pesquisas, extensão e ensino a fim de produzir conhecimento que contribua com uma educação musical democrática.

Norteadores teóricos

Utilizamos norteadores teóricos pelo fato de que este grupo vem trabalhando junto e utilizando alguns fundamentos teóricos comuns em sua produção que se tornam assim os norteadores do grupo. No entanto, sabemos que à medida que o grupo avance em seu trabalho, haverá uma tendência natural ao acréscimo e alterações de fundamentos teóricos:

  1. A pedagogia preconizada por Paulo Freire (1987; 1997; 2007; 2001) na qual o indivíduo deve ser o sujeito de sua educação e não o objeto dela. Enfatiza-se a importância da participação ativa do aluno em seu processo educacional como meio de fomentar a formação de sujeitos críticos. A educação é vista como um processo de fortalecimento do indivíduo que busca sua inserção social através da afirmação de suas diferenças/diversidade.
  2. Contribuição de Goffman (2012;2008) tanto referente a seu trabalho em instituições totais quanto à sua produção referente ao três tipos de estigma: 1. abominações do corpo 2. as culpas de caráter individual 3. estigmas tribais de raça, nação e religião.
  3. O conceito de representação social de Moscovici (2010) que se refere ao estudo e ao impacto das trocas simbólicas que ocorrem em nossos ambientes sociais e que estão presentes nas relações interpessoais contribuindo para a criação da cultura de um grupo social.
  4. A desinstitucionalização como desconstrução e superação de um modelo arcaico centrado no conceito de doença como falta e erro e como criação de possibilidades concretas de sociabilidade e subjetividade. (Amarante, 2011). A desinstitucionalização envolve o tanto o protagonismo do paciente em seu processo de sua cura e como a valorização de sua competência adquirida com a própria experiência. (Venturini, 2010).
  5. Este eixo trata da relação música-identidade social utilizando fundamentos da sociologia, psicologia e antropologia da música e etnomusicologia. (Hargreaves, 2004; Abeles et AL 1994; RADOLY ET BOYLE,1988;HODGES, 1999; ELLIOTT, 1995; HOFFER, 1992). Uma das funções sociais primordiais da música reside em instituir e desenvolver o sentido de identidade do indivíduo o conceito de identidade musical nos permite olhar as amplas e variadas interações entre música e indivíduo.
  6. Teoria da autodeterminação (ARAÚJO, 2009; FLEITH & ALENCAR ,2010) que defende que o ser humano tem uma propensão inata para o aprendizado e o ambiente fortalece ou enfraquece esta propensão.
  7. Bibliografia recente referente às políticas e movimentos sociais de Educação, Saúde e Cultura.
  8. Ideias de Saviani (2010) que discutem a relação entre a ordem econômica e a Educação indicando que a Educação atual assenta-se na exclusão social. O indivíduo busca uma qualificação diversificada a fim de tornar-se empregável em um mercado saturado.
  9. As propostas de reunificação do saber fragmentado, pertinentes ao conceito de Musicalidade Abrangente proposto por Alvares (2015), através da transdisciplinaridade nos processos de educação musical.

REFERÊNCIAS

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Educação musical, musicalidade abrangente e diversidade cultural no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq