Música brasileira dos séculos XIX e XX: práticas composicionais em perspectiva histórico-analítica

Projeto de pesquisa
João Vidal, docente responsável
Vilane Andrade, mestranda

Resumo

Uma preocupação própria da história da arte, e tópico recorrente da musicologia desde os primórdios de sua formalização como disciplina acadêmica, é a indagação acerca da relação entre contexto histórico e obra artística. Abordagens para a questão variaram, nos séculos XIX e XX, do empirismo positivista (tendendo ao biografismo, e caracterizado por uma agenda de trabalho mais produtivista que reflexiva) a metodologias privilegiando alinhamentos mais extrínsecos que internos (com a história política, sobretudo), encontrando uma satisfatória alternativa a fórmulas deterministas e reducionistas no trabalho do musicólogo alemão Carl Dahlhaus (1928-1989). Reconhecendo as distintas esferas possíveis de atuação humana como objetos de histórias específicas, relatos parciais e complementares a partir dos quais se poderia alcançar algo aproximável a uma “visão geral” de uma época ou período qualquer, Dahlhaus viu como uma das tarefas da musicologia “conectar a história da composição com a história intelectual […] e com a história social e econômica”, para com isso “esboçar o sistema contextual que une as estruturas e processos destes três ramos da história” (DAHLHAUS, 1989, p. 1). No projeto dahlhausiano, contudo, o foco nos elementos que constituiriam a história da composição – utopias, problemas e resultados encontrando expressão concreta nas práticas composicionais que ensejam, ou das quais dependem – surge atrelado à perspectiva dos estudos de recepção, sem o que, para Dahlhaus, não seria possível empreender uma “história da música que busque reconstruir o passado como realidade estrutural, estética e social da música, mais do que meramente colecionar grandes obras em um museu imaginário” (DAHLHAUS, 1989, p. 2, grifos nossos).

Buscando dar prosseguimento à aplicação da proposta metodológica geral de Dahlhaus à pesquisa da música brasileira, iniciada no projeto A música alemã no Brasil, 1870-1945: ideias–funções–transferências, o projeto Música brasileira dos séculos XIX e XX: práticas composicionais em perspectiva histórico-analítica objetiva sistematizar e expandir referenciais teóricos, temas e questões de pesquisa apresentados e desenvolvidos em um conjunto de publicações do proponente (VIDAL, 2014, 2017, 2020a e 2020b): produções enfocando, a partir de uma crítica da historiografia musical brasileira do século XX, problemas de composição e recepção percebidos no período abrangendo grosso modo a segunda metade do século XIX e a primeira do XX (e nas referidas publicações em conexão, especificamente, com a música de A. Nepomuceno e H. Villa-Lobos). Da articulação de preocupações e métodos de pesquisa proposta pelo projeto, resulta um programa de estudos da música brasileira do período com foco não apenas na apreciação da obra musical em seus múltiplos contextos (históricos, sociais, econômicos e políticos, demandando abordagens historiográficas), mas também, e sobretudo, do ponto de vista dos processos composicionais em jogo (entendidos aqui como práticas comuns compartilhadas convidando abordagens analíticas). Vinculado à Linha de Pesquisa História e Documentação da Música Brasileira e Ibero-Americana do Programa de Pós-Graduação em Música da UFRJ e ao Grupo de Pesquisa Música brasileira em perspectiva: práticas comuns dos séculos XVIII ao XX, o projeto propõe-se como plataforma de Iniciação à Pesquisa para alunos de Graduação da Escola de Música da UFRJ e de desenvolvimento de Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado sobre um amplo espectro de temas, problemas e objetos da pesquisa musical brasileira no âmbito de seu Programa de Pós-Graduação.

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