Patrimônio Musical: práticas, representações e políticas públicas

Projeto do Grupo de Pesquisa Novas Musicologias
Maria Alice Volpe, docente responsável
Edilson Vicente de Lima, docente
Manoel Aranha Corrêa do Lago, docente
Frederico Silva Santos, docente
Regis Duprat, docente
Marcelo Oliveira Verzoni, docente
Aline Santos da Paz de Souza, doutoranda
Daniel Daumas Borges, doutorando
Fabio do Carmo de Sa, doutorando
Heliana Farah, doutoranda
Mário Alexandre Dantas Barbosa, doutorando
Tiago Portella Otto, doutorando
Daniel Salgado da Luz Moreira, mestrando

Idioma alternativo para processo seletivo (Doutorado)
alemão, espanhol, francês ou italiano

Introdução

Este projeto de pesquisa propõe investigar as diversas formas de construção do conceito de patrimônio musical e sua localização epistemológica no conceito mais amplo de patrimônio cultural. O projeto desenvolve-se em três eixos inter-relacionados: o primeiro voltado para as práticas musicais e as operações históricas, antropológicas, sociológicas, analíticas e críticas; e o segundo voltado para a memória coletiva e as representações sociais; e o terceiro ocupado com as políticas públicas para o patrimônio cultural. A concepção abrangente das fontes musicais em suas dimensões escrita, oral e performática visa a explorar as possibilidades teórico-metodológicas de levantamento, identificação, registro, análise e crítica; e a estimar suas interseções com os conceitos legalmente estabelecidos relativos ao patrimônio material – especialmente o conceito de documento e monumento – e ao patrimônio imaterial – especialmente os quatro domínios: “formas de expressão”, “saberes”, “celebrações” e “lugares” (IPHAN cf. Decreto nº 3.551/2000). Este projeto de pesquisa implica em abordagens pronunciadamente interdisciplinares e em contínua construção metodológica de acordo com a questão norteadora proposta por cada subprojeto vinculado.

As práticas musicais e as operações históricas, antropológicas, sociológicas, analíticas e críticas

As práticas musicais têm sido representadas pela disciplina musicológica segundo métodos e ferramentas que tendem a polarizar as modalidades de registro e transmissão dos saberes, convenções e repertórios em duas categorias: a tradição escrita e a tradição oral ou performática. O reconhecimento da concomitância dessas modalidades com a eventual predominância de uma delas em cada prática ou tradição musical constitui perspectiva fundamental para uma reformulação do conceito de patrimônio musical ou cultural. Além disso, a compreensão de que as práticas musicais estão integradas em práticas culturais multidimensionais por sobreposição de linguagens leva a um redimensionamento do “objeto de estudo” e demanda a construção de novos campos teóricos e metodológicos, notadamente interdisciplinares, para sua abordagem.

A memória coletiva e as representações sociais

A contínua construção e reconstrução da memória coletiva se dá por um processo de gestão e ressignificação de legados, cujo caso da música será abordado como memória sonora vinculada a práticas, saberes e diversas formas de registros, tanto os produzidos por insiders quanto por outsiders, cujos enunciados e representações serão objetos de análise crítica. Questiona-se de que maneira os diversos registros – partituras musicais, gravações sonoras e audiovisuais, documentários, fotografias, reportagens, textos críticos, testemunhos de época e as análises musicais – são valorados e manejados segundo diferentes perspectivas da memória e da história para a construção de discursos identitários, que resultam em representações sociohistoricamente situadas da tradição e do patrimônio musical. A interação entre sujeitos sociais e instituições constitui aspecto importante no processo de construção das representações sociais.

As políticas públicas para o patrimônio cultural

A memória coletiva e as representações sociais conferem um valor identitário ao patrimônio cultural e musical e interagem, em maior ou menor grau, com as políticas públicas para o setor. Estando o Brasil entre os países pioneiros nas políticas públicas para o patrimônio histórico, artístico e cultural, já desde a década de 1930 estabelecendo quadros institucionais e marcos legais, o presente projeto ocupa-se com a história das diversas disciplinas, com ênfase nos estudos folclóricos, na etnomusicologia, nos estudos de música popular urbana e na musicologia, cujas operações históricas, antropológicas, sociológicas, analíticas e críticas contribuíram para a construção das identidades, percepções e conceitos. E permanecendo o Brasil entre os países mais atuantes nas políticas públicas para o patrimônio cultural, este projeto ocupa-se pelas questões contemporâneas visando à potencial reformulação conceitual que a música, enquanto modalidade mista de patrimônio tangível e intangível, material e imaterial, poderá trazer para o bojo do conceito de patrimônio cultural e as respectivas políticas públicas e marcos legais.

Objetivos

  • Redimensionar o conceito de patrimônio musical, especialmente no que tange as categorias de “material” e “imaterial”, buscando maior intradisciplinaridade entre musicologia, etnomusicologia, práticas musicais e análise musical.
  • Contribuir para a integração da musicologia com as questões das políticas públicas do patrimônio cultural.
  • Implementar ações integradas entre pesquisadores da música e profissionais da área de gestão de acervos e patrimônio cultural, tanto na aplicação de metodologias consolidadas e/ou adotadas internacionalmente (ver projeto anterior), quanto pela reformulação das ações institucionais.

Campo teórico-metodológico

  • A análise crítica e reformulação conceitual se norteará pelo aparato teórico-metodológico da História Cultural e da Musicologia Crítica.
  • Abordagens interdisciplinares cuja construção metodológica será realizada caso a caso, a depender da construção do objeto de estudo e da questão norteadora erigida em cada fase da pesquisa ou de cada subprojeto vinculado.
  • O levantamento, catalogação e análise dos dados dos diversos tipos de documentação histórica adotará metodologias consolidadas internacionalmente (RISM, RIdIM, RILM, RIPM), com possíveis adaptações demandadas por casos específicos.

Planejamento Estratégico

O presente projeto permite o desdobramento em vários subprojetos de pesquisa de menor escopo quanto ao objeto de estudo e ação localizada quanto à pesquisa de campo ou arquivo.

O desenvolvimento dos diversos módulos prevê acordos de cooperação interinstitucional e a participação de pesquisadores de diversas instituições do Rio de Janeiro e outros estados ou países.

As diversas etapas de cada projeto de pesquisa implicam em tarefas com desafios distintos e permitem a participação de pesquisadores nos diversos níveis: iniciação científica, mestrado, doutorado, pós-doutorado e pesquisador senior.

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