Práticas Pianísticas no Rio de Janeiro durante a 1ª República

Projeto de pesquisa
Marcelo Verzoni, docente responsável
Stella Junia, doutoranda

Introdução

Estudiosos do século XX convencionaram chamar de Romantismo um movimento estético característico que influenciou a arte e a literatura no século XIX. Segundo o musicólogo Carl Dahlhaus (1989), em música o Romantismo se situaria entre anos de 1814 e 1914, tendo como marco inicial as últimas obras de Beethoven, passando pelas óperas de Rossini, os Lieder de Schubert e Schumann, a poética de Liszt e Chopin, chegando até a dissolução tonal capitaneada por Wagner, que teve como consequência as inovações desenvolvidas por Arnold Schoenberg e seus discípulos.

Para Dahlhaus, a ópera O cavaleiro da Rosa, de Richard Strauss, seria o marco final deste longo processo. O Romantismo pode ser visto como um prosseguimento dos ideais clássicos, registrando como peculiaridade uma nova ênfase: enquanto no Classicismo o parâmetro “forma” era encarado como elemento essencial, no Romantismo a ideia de “expressão” passa a ter primazia sobre a forma, privilegiando, portanto, a emoção, a sensibilidade e o impulso irracional.

No Romantismo, além do sentimento sobrepor-se à razão, também a imaginação passa a desempenhar um importante papel. Lirismo, subjetividade e expressão individual passam a fazer parte dos ideais das gerações românticas.

Em relação à literatura, o Romantismo eclodiu na arte musical tardiamente, porém, com uma força extraordinária, encontrando nesta arte um grande potencial de expressividade. Na música, os românticos encontraram um terreno fértil para a criação de obras que traduzissem os mais diversos estados de espírito do ser humano.

No Brasil, a difusão do repertório romântico europeu deu-se gradativamente ainda na primeira metade do Século XIX. Assim sendo, os compositores que aqui atuavam trataram inicialmente de assimilar essa estética vinda da Europa, notadamente dos salões parisienses. Passaram a produzir, portanto, um repertório calcado sobre os moldes em voga na Europa.

Paulatinamente, esses moldes começaram conter também elementos que, hoje, conseguimos identificar como marcas de brasilidade. Os músicos, evidentemente, não estavam imunes às influências dos imperativos históricos e socioeconômicos da sociedade em que viviam. Tinham consciência em relação aos ambientes sociais aos quais suas produções eram destinadas. Esse convívio entre práticas europeias e uma incipiente música brasileira gerou, junto aos compositores de escola, uma série de obras com títulos populares, embora se destinassem a salões elegantes: Tango, Habanera, Galhofeira (para citar apenas alguns exemplos). Este projeto contempla o estudo das práticas interpretativas de obras de câmara (incluindo piano solo) de compositores como Chiquinha Gonzaga (1847-1935), Ernesto Nazareth (1863-1934), Leopoldo Miguéz (1850-1902), Henrique Oswald (1852-1931), Francisco Braga (1868-1945), Alberto Nepomuceno (1864-1920), Glauco Velásquez (1884-1914) e outros que tenham atuado no período histórico focalizado.

Considere-se o valor inestimável da coleção de manuscritos autógrafos da Biblioteca Alberto Nepomuceno, que abriga também grande número de documentos referentes às práticas de execução destes repertórios.

Objetivos

A presente pesquisa propõe-se a:

  1. localizar e arrolar as obras de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Leopoldo Miguéz, Henrique Oswald, Francisco Braga, Alberto Nepomuceno e Glauco Velásquez;
  2. localizar material referente às tradições interpretativas das obras focalizadas;
  3. produzir textos que discutam as práticas de execução destes repertórios;
  4. realizar gravações de algumas obras escolhidas.

Justificativa

Esta pesquisa faz parte de um projeto de recuperação da memória brasileira histórico-artística. As produções dos referidos compositores fazem parte de um legado essencial da arte brasileira. No entanto, até os dias atuais, a maior parte deste material permanece inacessível.

Assim sendo, faz-se urgente um trabalho de recuperação e divulgação dessas produções. O fato de alguns desses compositores terem sido denominados “europeizados” e, portanto, rotulados de acordo com o seu grau maior ou menor de aproximação com os ideais nacionalistas, contribuiu para fazer com que suas produções ficassem numa posição secundária durante muitas décadas.

Atualmente encontra-se em curso uma reavaliação de todo esse legado e de sua relevância no âmbito do processo de fundação da nação brasileira. Nosso projeto enfoca especificamente o repertório com piano por ser este o campo de investigação com o qual estamos familiarizados e vimos trabalhando de longa data. A importância do acervo da Biblioteca Alberto Nepomuceno oferece um ensejo especialmente favorável à realização deste projeto.

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