Superfície e estrutura em aplicações da Análise Particional (2018)

Projeto de pesquisa do Grupo MusMat
Pauxy Gentil-Nunes, docente responsável
Carlos Almada, docente
Liduino Pitombeira, docente
Bernardo Ramos, doutorando
Daniel Moreira, doutorando
Pedro Moraes, doutorando
Sergio Ribeiro, doutorando

Idioma para processo seletivo (Doutorado)
francês

Apresentação

No último quadriênio, a Análise Particional vem se consolidando como teoria dos jogos criativos, subjacente a estudos musicais no campo da textura musical, com suas implicações em diversos campos da teoria, tais como a forma, a instrumentação e orquestração, o timbre e a harmonia.

Seu principal objetivo é a formulação de novos jogos criativos , advindos da constituição de uma taxonomia exaustiva abrangente e geral , relativa aos comportamentos criativos (decisões tomadas pelo compositor acerca da distribuição de elementos, principalmente, mas não exclusivamente, na dimensão da simultaneidade). Esta taxonomia permite ao compositor não só situar a própria poética em um campo integral, mas também a percepção de poéticas não articuladas, o que lhe dá a possibilidade de tomadas de consciência e, consequentemente, ampliação da liberdade em suas escolhas.

A metrificação das relações entre configurações composicionais também permite a avaliação e ressignificação de situações criativas que são tradicionalmente trabalhadas de forma mais intuitiva ou oral, sendo assim moldadas de forma subliminar nas teias intertextuais de movimentos culturais ou sociais. Ao tomar consciência das relações, mais uma vez, é dada ao compositor uma possibilidade de escolha.

Além destes dois aspectos, a homologia encontrada entre os diversos campos permite um tipo de tradução inédita entre campos que até agora eram completamente estanques. A cada configuração textural, por exemplo, corresponde um comportamento melódico, tímbrico, sistêmico, espacial ou instrumental, de tal forma que é possível verter um parâmetro no outro, mantendo relações e proporções básicas, de forma significante.

Em sua trajetória, a AP se focou inicialmente na investigação destas relações na textura, entendida no sentido de Wallace Berry (1976), que foi chamada de Particionamento Rítmico, uma vez que avalia justamente as congruências rítmicas entre partes (GENTIL-NUNES 2005a, 2005b, 2006b, 2013). Uma vez estabelecidas as ferramentas e conceitos principais, a aplicação a outros campos foi inevitável. Nos últimos quatro anos, uma série de propostas ampliaram o escopo de aplicação, tornando essa tradução ainda mais ampla. Destacamos cinco principais expansões que mudaram o âmbito da teoria.

1) O Contorno Textural de Daniel Moreira (2015) é uma importante expansão conceitual da Análise Particional, construída a partir da vetorização das relações de adjacência entre partições, produzindo uma linha unidimensional de complexidade textural crescente. A partir desta ideia, o Contorno Textural traz a possibilidade de tratar a sequência de partições como um sinal, com todas as vantagens operacionais e conceituais decorrentes.

2) O Particionamento de Unidades Musicais Sistêmicas, de Rafael Fortes (2016), é uma revisão profunda do Particionamento de Eventos (GENTIL-NUNES, 2009), e trata da maneira como são definidas, no jogo criativo, unidades caracterizadas pela estrutura do discurso em si, criando assim unidades complexas e distintas, que interagem no jogo criativo em um nível mais profundo e amplo. Em seu trabalho, Fortes apresenta importantes e compreensivas análises de trechos de peças clássicas do repertório de música textural, tais como Metastaseis, de Iannis Xenakis (1954), Lontano, de Györgi Ligeti (1967) e Livre pour Orquestre, de Witold Lutoslawski (1968).

3) O Particionamento Instrumental, de Didier Guigue (2018) desenvolve uma metodologia afim do trabalho de Fabio Monteiro (2014) de Particionamento Orquestral, mas com um nível de detalhe e amplitude bem maiores, no qual a trama de indicações instrumentais pelo compositor na partitura é considerada dentro do que Didier chama de Setups, ou seja, configurações específicas de técnicas instrumentais que têm um impacto imediato na constituição da sonoridade orquestral. Didier desenvolveu, junto com Charles de Paiva, uma série de ferramentas digitais em OpenMusic, dentro do programa SOAL de Análise Musical.
4) As Propostas Texturais Instrumentais (PTIs), de Bernardo Ramos (2018) trazem a aplicação do Particionamento Rítmico para a concretude da relação entre o corpo humano e as texturas. Através da análise da textura e sua relação com as técnicas instrumentais, uma série de correspondências entre a estrutura musical e a ergonomia das mãos e dedos, assim como a constituição física do instrumento se revelaram, abrindo um novo campo de exploração que se situa entre a textura musical, a instrumentação e a composição. Bernardo realizou a análise dos Estudos Sencillos, de Leo Brouwer (1972), relacionando a progressividade das texturas com o uso dos dedos e mãos, propondo uma codificação dos gestos instrumentais e aplicando à composição de obras originais.

5) Os Complexos Particionais, de Pauxy Gentil-Nunes, Daniel Moreira e Bernardo Ramos (2018) decorreram da aplicação continuada do Particionamento Rítmico a composições de obras, que demandou uma concepção mais orgânica para a compreensão da trama textural. Esse passo era esperado desde o início da teoria, que precisou se ater em um primeiro momento a uma concepção mais rígida para fundamentar seus conceitos básicos, aguardando o momento de flexibilização mais articulada, em curso no momento. Em artigo de 2018, Pauxy Gentil-Nunes resume o conceito de Complexo Particional como um grupo de partições que constitui, em um nível mais amplo, a realização de uma partição de referência, em uma concepção hierárquica da textura, semelhante a uma redução schenkeriana.

No presente projeto, propõe-se:

  • A continuação da exploração dos particionamentos já desenvolvidos.
  • A implementação do particionamento tímbrico dentro do escopo da AP.
  • A introdução à exploração dos particionamentos tímbrico, espacial e instrumental.
  • O desenvolvimento de capacidades multimídias e de funcionamento em tempo real dos programas já publicados. A versão de funções para softwares de manipulação musical em tempo real, tal como o Max/MSP.

Objetivos

O projeto pretende expandir as possibilidades de aplicação dos particionamentos e conceitos novos, desenvolvidos nos últimos quatro anos, e implementar outras ainda não exploradas, como os particionamentos tímbrico e espacial.

Como a Análise Particional tem como objetivo básico a formulação de novos jogos criativos, inclui-se aqui a criação de jogos baseados em particionamentos tímbricos e espaciais, bem como a documentação do trabalho de criação de alunos, compositores atuantes e do próprio pesquisador, e apresentação do resultado destes jogos.

Pretende-se também a aplicação do Particionamento Instrumental para vários meios instrumentais diferentes, de acordo com a familiaridade e domínio dos pesquisadores envolvidos.

Justificativa

As relações entre teoria e corpo, assim como a de estrutura e superfície são extremamente pertinentes ao estudo do conhecimento na pós-modernidade. O foco no concreto, já avalizado anteriormente por uma visão linguístico-pragmática, se realiza através da observação da superfície e se enriquece com as relações constituintes da estrutura.

Por ser um campo novo e amplo, a pesquisa da análise particional assume caráter exploratório, para avaliação preliminar da pertinência de áreas específicas internas à teoria e de suas possibilidades de aplicação.

Metodologia

A pesquisa será desenvolvida a partir de análises, resultantes da interpretação de gráficos produzidos manualmente ou pelo PARSEMAT.

Para a realização das análises, será necessário o levantamento de corpos teóricos referenciais, que fundamentem os particionamentos envolvidos. A escolha será feita levando em conta os usos destes corpos teóricos, inscritos em partitura ou explicitados em análises já realizadas.

A meta-análise comparativa será necessária, para estabelecer paralelos entre usos já consagrados e as possibilidades ainda não estabelecidas no uso.

Como uma última etapa, a observação da aplicação dos particionamentos no processo criativo poderá ser realizada e documentada.

Referências

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